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Gama

Uma dança a dois

Saudade. Palavra com sete letras, mas que significa tanto. Palavra que apenas existe na língua portuguesa, e que não tem tradução literal em qualquer outra língua. Mas porque começo um artigo com a palavra saudade?

Porque a saudade foi a responsável por ele. Primeiro porque o Honda Civic Type-R marcou quando o conduzi pela primeira vez, e por isso deixou algum desse sentimento a quem vos escreve, mas também pelo local que escolhemos para o (voltar) a apresentar e conduzir, desta vez de forma bem diferente.

Falo-vos de um local mítico para quem adora o desporto motorizado e guarda, claro está, com saudade, os “velhos tempos” dos ralies na Lagoa Azul, em Sintra. As noitadas, o ambiente eletrizante, o ecoar dos motores pela serra. Imaginei tudo isso, enquanto esperava…

Esperava?

Sim, esperava. A história (real) começa numa insónia. Uma daquelas noites em que dormir é tarefa complicada e, neste sábado, o relógio teimava em não avançar. Na mesa de cabeceira estava a chave, com o logo H em vermelho, e não fui capaz de resistir…

Vesti a primeira roupa que encontrei, calcei-me, levei a máquina fotográfica. Desci as escadas, e lá estava ele, o Civic Type-R já com as suas luzes ligadas, no meio de uma “cacimba” típica desta altura. Disse baixinho: “Vamos dançar onde os heróis dançaram…”

O caminho, noturno, é onde me mentalizo. Felizmente, o Honda Civic Type-R, oferece algum conforto, não ficando atrás de um Civic normal. Selecionado o modo “Confort”, as coisas ficam menos “achocalhadas”, aqueço o habitáculo e ouço uma boa música. Inspiro-me e inspiro. São cerca de 50, os quilómetros que me separam daquele pequeno pedaço de asfalto, que tanto significa para nós, que adoramos automóveis.

Chegado, vou até ao topo em ritmo lento, paro lá, onde apenas se vê um “fio de luz”, o sinal que nos avisa que um novo dia se prepara para nascer. E aqui estou eu, a ver o sol nascer, num puro automóvel do sol nascente. Parece poético, e não é mesmo?

Saio, e apenas ouço os sons da natureza, não há mais ruído. Nada, absolutamente nada.

A luz começa a aumentar, são 6:53. Decido arrancar, e chegou o momento de matar a saudade. Este local, que também tem a sua dose de tragédia, serve hoje para celebrar um dos melhores tração dianteira que o mercado tem para oferecer.

Para quem não sabe, o Honda Civic Type-R monta um motor 2.0 VTEC Turbo que desenvolve 320cv, apenas entregues às rodas dianteiras, tudo sendo tolerado por um muito competente diferencial autoblocante mecânico, orquestrado pela transmissão manual de seis velocidades. Mecânica, sensorial, competente e muito bem escalonada. Nada a apontar.

Esteticamente, o Honda Civic Type-R não arrebata todos os corações, é verdade. E nem o meu, que não sou fã do seu aspeto altamente radical cheio de asas, aletas, entradas e saídas de ar. Algumas com função, outras nem tanto. Mas mal me sento ao volante e o começo a “pilotar”, esse meu sentimento muda, e consigo desculpar tudo isso…

Escolho o melhor dos três modos de condução, o Sport. Mesmo que exista ainda o modo “+R”, este acaba por não ser o mais competente em estrada já que torna o Civic Type-R demasiado rijo e focado, ideal para usar em pista, onde o asfalto mais parece o green put de um campo de golfe. O modo Sport é o ideal para enfrentar uma estrada mais divertida e desafiante, como esta é.

É o melhor equilíbrio.

Equilíbrio, é isso que este chassi nos mostra. Não há adornar, não há roda que perca o contacto com o chão, há apenas um objetivo: ser rápido! A direção mais parece telepática. A entrada em curva pode ser feita com total confiança e mais tarde, deve ser feita em carga no acelerador, o que nos faz pensar: “onde é que tu vais arranjar todo este grip, Civic?”

O diferencial realmente faz um trabalho espantoso, e penso:
“A Honda realmente não tem experiência nenhuma em ralies, mas acho que neste troço, o tempo seria interessante.”

Não estou obviamente aqui para medir tempos, isso seria altamente irresponsável. Mas pela “minha medição preferida”, ou seja, as sensações dadas, é interessante pensar o que estes automóveis evoluíram, enquanto passo por mais uma das curvas destes cinco quilómetros de bom alcatrão.

A travagem faz-me ser empurrado, a mordida é forte e decidida, enquanto os incansáveis Brembo garantem que estas formas radicais chegam de novo inalteradas a casa. Logo depois vem o “encher” do turbo, com ligeiro lag e sem torque steer, que nos leva de novo para outra curva. Aqui, as retas são mesmo apenas momentos de espera, até à diversão, e a diversão está mesmo nas curvas, no serpentear.

O painel de instrumentos pode assumir as “shift lights” como na competição, e indica-nos o momento certo de passagem, uso-as de forma ao som invadir todo o habitáculo. É grave, encorpado, e sem estalidos. Apenas som, o som de um quatro cilindros que mostra ter pulmão “para dar e vender”. Uma performance que supera alguns supercarros se andarmos com o calendário uma década para trás, por pouco mais de 50 mil euros, um valor alto, mas que se justifica pelas suas elevadas prestações.

Rapidamente se chega ao fim. E de imediato, a tal saudade instala-se e invade-me. O que vale é que se pode voltar a subir e descer, mas não. O sentimento de saudade também pode ser positivo, deixando boas memórias, e vou mantê-lo assim. As fotos ficam para a posteridade, para relembrar uma “dança a dois”, num dos mais belos salões de dança automóveis, que conheço.

Daqui, volto para casa, numa das mais belas insónias que um homem pode ter, em conjunto com a sua máquina. Foi uma brava dança dos heróis, o que aqui se passou.

Um humilde tributo aos heróis que aqui andaram nas décadas de 80, mas também à Honda por ainda produzir automóveis apaixonantes, espero que isto sirva para incentivar a que isso não mude, e que não se esqueça o que Soichiro Honda disse: “Racing improves the breed”, ou seja: “As corridas melhoram a raça”. Sabem o que R de Type-R quer dizer? Sim, isso mesmo, Racing…

Rodrigo Hernandez
rodrigohernandez Rodrigo Hernandez é um produto do início da década de 90, e os automóveis sempre estiveram presentes na sua vida desde que se lembra. São a sua verdadeira paixão. É ao volante que mais gosta de estar, de preferência em boas estradas, e quanto mais retorcidas melhor. É fundador do MotorO2, e um péssimo co-piloto. Ver perfil

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